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O tédio que a sua criança precisa,e porque não deve preenchê-lo

Todos os anos, os pais preparam as férias de verão como se o vazio fosse um problema a resolver. A investigação sobre criatividade infantil sugere o contrário. Em 2014, a psicóloga Sandi Mann, da Universidade de Central Lancashire, conduziu uma experiência simples. Pediu a um grupo de adultos que copiasse números de uma lista telefónica durante quinze minutos, uma tarefa deliberadamente maçadora, antes de lhes propor um exercício criativo: encontrar usos alternativos para um copo de poliestireno. Comparado com um grupo de controlo que passou direto ao exercício, o grupo que tinha estado entediado gerou mais ideias, e ideias mais originais. O tédio, escreveu Mann, não é o inimigo da criatividade. É frequentemente a sua condição de arranque.

O QUE ACONTECE NO CÉREBRO QUANDO “NÃO HÁ NADA PARA FAZER”

Quando uma criança está ocupada (a seguir instruções, a olhar um ecrã, a participar numa atividade organizada por um adulto), o cérebro recruta sobretudo as redes associadas à atenção dirigida a um objetivo. Mas quando essa exigência externa desaparece, entra em ação aquilo que os neurocientistas chamam a rede de modo por defeito (default mode network), descrita pela primeira vez por Marcus Raichle em 2001. É precisamente nesta rede, ativa durante o devaneio, o olhar perdido pela janela, os momentos “sem propósito”, que o cérebro faz algo que a atenção focada não permite: liga ideias distantes entre si, revisita memórias, simula cenários hipotéticos. É o substrato neurológico daquilo a que chamamos, em linguagem comum, “ter uma ideia do nada”.

A criança que se queixa “estou aborrecida” está, do ponto de vista do cérebro, prestes a começar a trabalhar.

A INVESTIGADORA QUE ESTUDOU O ABORRECIMENTO INFANTIL DURANTE UMA DÉCADA

Teresa Belton, da Universidade de East Anglia, passou anos a estudar como as crianças respondem a períodos de inatividade. A sua conclusão mais citada: quando o tempo de uma criança é preenchido ao pormenor por adultos (atividades, ecrãs, horários), ela nunca é forçada a desenvolver os próprios recursos internos. É o desconforto inicial do “não sei o que fazer” que obriga o cérebro a inventar. Retirar sistematicamente esse desconforto, argumenta Belton, retira também a oportunidade de o resolver sozinho. Este ponto cruza-se com um dos achados mais robustos da psicologia do desenvolvimento das últimas duas décadas: o declínio acentuado do brincar livre e não estruturado nas crianças ocidentais, documentado extensivamente pelo investigador Peter Gray (Boston College), e a correlação que o seu trabalho estabelece entre essa redução e o aumento de indicadores de ansiedade infantil. A criança que brinca sem roteiro está, sem o saber, a treinar exatamente a competência que mais lhe vai faltar mais tarde: gerar as suas próprias opções perante uma situação sem instruções.

O QUE ISTO MUDA NAS FÉRIAS, NA PRÁTICA

Nenhuma destas investigações defende o abandono ou a negligência. Defendem uma distinção simples, que a maioria dos calendários de verão ignora por completo: a diferença entre tempo ocupado e tempo disponível.

Menos programa, mais matéria-prima. Um brinquedo com uma função só permite uma resposta. Uma caixa, fita-cola, retalhos de tecido ou ferramentas simples permitem centenas. Alison Gopnik, professora de psicologia do desenvolvimento em Berkeley, resume assim a diferença entre explorar e explorar-com-objetivo: as crianças pequenas estão biologicamente inclinadas a testar hipóteses sobre o mundo quando o mundo lhes dá espaço para o fazer, não quando lhes é dito o que fazer com ele.

Blocos de tempo sem agenda, não preenchidos “por precaução”. A tentação de resolver o primeiro sinal de aborrecimento (com um ecrã, com uma atividade, com uma sugestão) interrompe exatamente o processo que a rede de modo por defeito precisa de tempo para completar. Os primeiros minutos de “não sei o que fazer” costumam ser os mais desconfortáveis para os pais. Não são o problema. São o início do processo.

Perguntas em vez de soluções. Quando uma criança traz um problema (“estou aborrecida”, “isto não funciona”), devolver a pergunta (“o que já experimentaste?”, “o que aconteceria se…?”) mantém o trabalho cognitivo do lado da criança. Resolver o problema por ela é mais rápido, mas transfere para o adulto exatamente o exercício que era suposto ser dela.

Esta semana, experimente isto:

Escolha uma tarde sem nenhum plano. Não avise a criança do que vai acontecer, porque não vai acontecer nada preparado por si.

Quando surgir o “estou aborrecido/a”, não resolva. Responda apenas: “O que é que isso te dá vontade de fazer?”

Deixe ao alcance objetos sem função definida (caixas, fita-cola, papel, restos de tecido) e não sugira o que fazer com eles.

No final do dia, pergunte: “Qual foi a ideia mais estranha que tiveste hoje?” Não a melhor. A mais estranha.

Não é sobre produzir algo. É sobre deixar o cérebro fazer, sem ajuda, o trabalho para o qual está preparado desde sempre.

NO BUSINESSKIDS

Cada sessão do BusinessKids parte do mesmo princípio. A criança não recebe um problema com resposta certa, recebe uma situação real e tem de decidir sozinha o que fazer com ela. Não se forma um espírito empreendedor a dar mais instruções. O caminho é o inverso: dão-se menos indicações de propósito, para que seja a própria criança a preencher esse espaço com as suas ideias.

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